Sobre a fase asiática

 O que há de comum numa mulher africana-brasileira e os costumes das mulheres asiáticas?

O que se poderia esperar de uma mulher negra que nasceu em São Paulo, influenciada pelos ecos do Black Moviment norte americano que ressoava na periferia da maior cidade brasileira? O que esperar de uma estudante que estudou numa das melhores escolas de artes do Brasil e teve contato com as mais variadas técnicas artísticas e conheceu de perto, por autodidatismo também, as diversas correntes da história das artes em diversos continente e seus movimentos culturais de invenção e reinvenção? O que esperar daquela que viveu na metrópole desvairada de Mário de Andrade, suscetível à todas as tendências literárias, musicais, artísticas e culturais que fazem de São Paulo uma das cidades mais cosmopolitas do mundo?

Renata Felinto é uma força antropofágica. Ela tem o dom de, ingerir, digerir e fazer aparecer algo novo. Foi aplicando as técnicas que aprendeu ao longo da sua formação acadêmica que ela deu vida e arte à objetos simples como fotos de família, às telas em água forte, xilogravuras, gravuras, desenhos, esculturas, pinturas e tantas outras criações.

 Quando Renata Felinto se propôs a fazer a série de auto-retratos, intitulada “Afro Retratos”, sendo a fase aqui enfatizada a “asiática”, explicou seu o conceito. Justificou que as mulheres contemporâneas estão suscetíveis às influências de modas e costumes que circulam em todas as partes do mundo. Seria apenas isso?

Tecnicamente, suas telas revelam esmerado trabalho artístico com sobreposições de vários materiais: diversos tipos de lantejoulas, apliques, glitter, tinta guache, pastel seco, lápis de cor aquarelado sobre papel. A combinação de cores primárias e secundárias, os detalhes como o do passarinho em off encantam aos olhos e aos sentidos dos leigos aos críticos de artes.

Foi tentando classificar a arte de Felinto que constatei seu lado antropofágico e metamorfoseador feminino. As curtas pinceladas coloridas remetem ao impressionismo, mas não o é, pois a artista valoriza também as linhas. Os traços da figura feminina remeteram-me aos afrescos coptas.

Os apliques e colagens fazem lembrar o movimento inglês Arts and Crafts, a composição com flores é um tanto barroca e ao mesmo tempo assemelharam-se às populares estampas indianas muito popularizadas no mercado brasileiro, o qual explorou traços estéticos da cultura hindu através de telenonelas.

Renata Felinto presenteia o público com essa série, resultado de significativa pesquisa sobre os costumes de mulheres asiáticas, como as da Índia, representadas pelas hinduístas e budistas. Mas é na mulher negra com roupa azul, usando o chapéu semelhante ao capelo (chapéu que representa a conclusão de curso universitário) com antiga máquina datilográfica sobrepondo-se que Felinto contemporiza fundamentalmente sua obra.

Vanicléia Silva Santos (UFMG)

Maio de 2012.

Vanicleia Silva Santos é graduada em História pela Universidade do Estado da Bahia, mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, doutora pela Universidade de São Paulo. Tem pesquisa sobre práticas mágicas africanas e cristãs nos contextos missionários do século XVIII. Suas áreas de pesquisa são: Poder e Religião, Inquisição na África, História da África e formação do Mundo Atlântico. Atualmente é Professora Adjunta de História da África da Universidade Federal de Minas Gerais e desenvolve projeto de pesquisa sobre atuação da Inquisição em Angola.

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